Um “Presente de mãe” fantástico e genial

As crianças estão em Astúrias com Germán. Falo com eles por telefone.

-Bem.

-Sim.

-Na cabana.

– Sim? Que bom. E o que fazeis?

-Pintar.

-Não me lembro. Você passo-a-Ari?

-Bom, vale a pena. Ei, eu te amo muito, e te echo de menos.

-Eu também. Adeus.

-Oi, mãe.

-Bem.

-Bem.

-Diga-me algo de que haveis feito, anda.

-Não me lembro.

Está claro que eles não estão muito lenguaraces hoje. Eu também não.

-Sim.

-Pois não te parece muito entusiasmado.

Silêncio.

-Bom, meu amor, eu te amo um montonazo e não te digo que a vontade que eu tenho de te ver…

-E eu.

De repente, me ilumina de uma máquina.

-Ouve -digo.

Silêncio.

-Uma coisa.

Silêncio.

– Você sabe que minha mãe parou de fumar? -digo suavemente, quase envergonhada.

– ¡¡¡¡¡¡ BIEEEEEEN!!!!!! -soa do outro lado.

– Você se feliz por? -digo, riéndome.

-Um momento, mamãe -disse-me o Ari-. Você sabe o que, Elmo? Que a mãe parou de fumar POR FIM.

Se ouvem vivas, gritos e risos.

Se me vêm à memória as cenas dos últimos meses. Elmo e Ari a ler com voz piscando os slogans dos pacotes de tabaco: “Fu… mar… ma… TA!”. Sua cara de susto. “Mas mãe, aqui coloca. Você vai morrer”.

Apontando as arrepiantes fotos de gargantas ceifadas (“Mamãe, olha como vai ficar a garganta”), pulmões corroídos (“Mãe, você tem os pulmões, assim, como um frango frito?”), faces macilentas (“Olha, mãe, dentro de nada, você vai ter essa cara de zumbi”).

Puxando desesperados da minha mão no sentido contrário quando eu queria entrar no estanque. “Vamo-nos daqui, mãe. Você Me prometeu mil vezes que não ia fumar mais”.

Recebendo secas respostas forense acostumado a traquinar com cadáveres, como “Todos nós vamos morrer, céu” ou “Tu o teu”.

Por sua inesperada alegria, deduzo sua angústia anterior. Ao fim e ao cabo, não lhes restava outra que ver várias vezes ao dia, o medo de que desaparecessem seus pais (seu teto, sua comida, seu cobertor, seu guarda-chuva, seu som, seu alívio, o tanque, o seu modelo…), escrito e desenhado em reportagem fúnebres sobre a prateleira da cozinha, na mesa da sala, esquecido em um banco do banho.

Acho que acabei de fazer -que eu acabei de fazer – um bom presente.

“A mother’s gift”

The boys are in Astúrias with Germán. I’m talking to them on the phone.

“Hi Elmo, love, how are you?”

“Okay.”

“Oh yeah? Are you having a good time?”

“Yeah.”

“Where are you?”

“In the cabin.”

“Yeah? That’s great. And what are you doing?”

“I can’t remember. Will I put Ari on?”

“Well, okay. Hey, I love you very much and I miss you.”

“Me too. Bye.”

“Ari?”

“Hi, mom.”

“How are you, honey?”

“Okay”.

“Tell me what you’ve been doing, will you?”

“I can’t remember.”

It’s obvious they’re not very talkative today. Neither am I.

“Are you looking forward to the Three Kings?”

“Yeah.”

“Well, you don’t seem very excited.”

Silence.

“Well, honey, I love you loads and I’m dying to see you

“Me too.”

All of a sudden I have a brilhante idéia.

“Listen,” I say.

Silence.

“Just one thing.”

Silence.

“Do you know that mom has given up smoking?” I half mumble, feeling almost ashamed.

“YEEEESSSS!!!!” I hear on the other side.

“Are you glad?” I say, laughing.

I hear Elmo in the distance.

“What’s up? What’s happened?”

“Hang-on-a-minute, mom,” disse Ari. “Do you know what, Elmo? Mom has given up smoking AT LAST.”

I can hear hoorays, cheering and laughing.

Many scenes from the past few months come to mind. Elmo and Ari reading the warning signs on cigarette packets with trembling voices, ” … Smo king… KILLS.”Their frightened faces. “But mom, it says it here. You’re going to die.”

Pointing to the shocking photos of festering throats (“Mom, look what your throat will look like”), corroded lungs (“Mom, are your lungs like that, like fried chicken?”), haggard faces (“Look mom, you’ll soon have a zombie face like this”).

Desperately pulling me in the opposite direction when I wanted to go into the tobacconist’s to buy cigarettes. “Let’s get out of here, mom. You’ve promised lots of times that you won’t smoke anymore.”

Receiving curt replies, worthy of forensic doutor used to dealing with corpses, like “We’re all going to die, honey” or “Mind your own business.”

From their unexpected joy, I realize their hidden anxiety. After all, they had não choice but to face the fear, several times a day that their parents might disappear (along with their roof, food, blanket, umbrella, lullaby, comfort, tank, role model …) written and illustrated in death notices on the kitchen shelf, the sitting room table, left behind on a bathroom stool.

I think I’ve just given them, just given myself, a great gift.

Tradução: Leonora Nem Eigeartaigh.

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